Robots e IA: Utopia ou distopia — 1.ª parte

Por Mariana Avelãs

Recentemente, escrevi um texto (i) sobre o novo livro de Paul Mason, Pós-Capitalismo (ii), em que se defende que a Internet, a automação, os robots e a inteligência artificial estão a criar uma nova economia, impossível de controlar pelos meandros do capitalismo. Segundo Mason, estão em campo novas forças, que, paulatinamente, substituem a velha luta de classes entre o capital e o proletariado, tal como Marx a descreveu, por um sistema de comunidades em rede. Em conjunto, tecnologia e rede conduzirão-nos a uma sociedade pós-capitalista (socialista?), sem freio à vista.

Discordei da premissa de que as novas tecnologias acabariam por substituir as «velhas formas» de luta de classes. Mas também, já agora, da ideia de que as crises económicas regulares e recorrentes no capitalismo acabarão por dissipar-se num cenário de alta produtividade e horários de trabalho reduzidos, num contexto de «definhamento» do capitalismo.

Mas o debate incentivou-me a olhar para algo que já há algum tempo queria abordar. Nomeadamente, quais as implicações de facto destas novas tecnologias para o capitalismo. Mais concretamente, estão os robots e a inteligência artificial destinados a tomar de assalto o mundo do trabalho, e, por conseguinte, a economia, nas próximas gerações, e o que é que isso significa em termos de empregos e qualidade de vida para as pessoas? Será uma utopia socialista (o fim da labutação humana e uma sociedade harmoniosa e superabundante) ou uma distopia capitalista (crises mais intensas e mais conflitos de classe)?

É uma questão importante. Comecemos por apresentar algumas definições. Por robots, entendo máquinas que possam substituir a mão-de-obra humana através de programas informáticos que dirigem o movimento de partes da máquina de forma a executar tarefas, das mais simples às mais complexas.

A Federação Internacional de Robótica (FIR) considera robot industrial qualquer máquina que possa ser programada para executar tarefas físicas relacionadas com a produção sem necessidade de um controlador humano. Os robots industriais aumentam drasticamente o campo em que é possível substituir o trabalho humano, em comparação com as máquinas mais antigas, uma vez que reduzem a necessidade da intervenção humana nos processos automatizados. As aplicações mais típicas de robots industriais incluem a montagem, dosagem, processamento (por exemplo, cortes) e soldagem — todos predominantes na indústria transformadora —, para além das colheitas (na agricultura) e da inspeção de equipamento e estruturas (habitual em centrais elétricas).

A robótica industrial tem o potencial de mudar a transformação, pelo aumento da precisão e da produtividade, sem assumir custos mais elevados. A impressão em 3D pode dar origem a um novo ecossistema de empresas de objetos que possam ser impressos, tornando os produtos do quotidiano infinitamente personalizáveis. A chamada «Internet das Coisas» oferece a possibilidade de ligar máquinas e equipamento, entre e a várias redes, permitindo que as instâncias de transformação sejam plenamente monitorizadas e accionadas remotamente. Nos

cuidados de saúde e ciências da vida, as decisões baseadas em dados — que permitem a angariação e análise de grandes conjuntos de dados — já estão a produzir alterações em terms de I&D, cuidados clínicos, prognósticos e marketing. A utilização de grandes volumes de dados na saúde tornou possíveis novos tratamentos e medicamentos altamente personalizados. O ramo das infraestruturas, que não registou qualquer avanço ao nível da produtividade laboral nos últimos vinte anos, poderia conhecer francos progressos, graças, por exemplo, à criação de Sistemas de Transporte Inteligentes (iii), que aumentariam substancialmente a utilização dos recursos; à introdução de redes inteligentes, úteis para ajudar a poupar nos custos associados às infraestruturas elétricas e reduzir a incidência de interrupções de fornecimento, sempre tão dispendiosas; e a uma gestão eficiente da procura, que poderia reduzir, dramaticamente, a utilização energética per capita.

Entre as tecnologias emergentes, onde é que é expetável que se registem os maiores avanços em termos de contribuição para o aumento de produtividade? Para o McKinsey Global Institute (MGI) (2013) (iv), as «tecnologias que importam» são as que têm maior potencial para produzir impacto e rupturas económicas na próxima década. Fazem parte desta lista as que progridem mais rapidamente (por exemplo, as ligadas à sequencialização dos genes); as que têm um amplo alcance (por exemplo, a Internet móvel); as que têm o potencial para gerar impacto económico (por exemplo, a robótica avançada) e produzir alterações ao nível do status quo (por exemplo, a tecnologia de armazenamento de energia). O MGI calcula que o impacto económico destas tecnologias — causado por quedas nos preços, difusão generalizada e uma maior eficácia — rondará um valor entre os 14 e os 33 triliões de dólares por ano em 2025. No topo da lista estão a Internet móvel, a automação do trabalho intelectual, a Internet das Coisas e a tecnologia cloud.

Num ensaio brilhante (v), John Lanchester resumiu assim a questão: «os computadores tornaram-se incrivelmente mais poderosos, e tão baratos que, na prática, são ubíquos, e o mesmo pode dizer-se dos sensores que utilizam para monitorizar o mundo físico. O software que correm também conheceu desenvolvimentos espantosos. Brynjolfsson e McAfee sustentam que estamos à beira de uma nova revolução industrial, cujo impacto no mundo igualará o da primeira. Categorias de trabalho inteiras serão transformadas pelo poder da computação, e, em particular, pelo impacto dos robots.»

Quando falamos de inteligência artificial (IA), referimo-nos a máquinas que não se limitam a executar instruções pré-programadas, mas que aprendem novos programas e instruções pela experiência e exposição a novas situações. Na prática, a IA implica que os robots que aprendem aumentam a sua própria inteligência — ao ponto de poderem ser os próprios robots a produzir mais robots, cada vez mais inteligentes. Aliás, há quem diga que, não tarda, a IA vai suplantar a inteligência dos seres humanos. A isto chama-se «singularidade» — o momento em que os seres humanos deixam de ser os entes mais inteligentes no planeta. Ademais, é possível que os robots acabem por desenvolver a forma e os sentidos dos seres humanos, tornando-se, desse modo, «sencientes».

Mas, antes de entrar na ciência (ou será ficção científica?), vamos começar pelo princípio. Se os robots e a IA vão longe, e depressa, significará isso uma imensa destruição de empregos ou, em alternativa, novos setores de empregabilidade e a necessidade de trabalhar menos horas?

Num trabalho recente, Graetz e Michaels (vi) analisaram 14 indústrias (sobretudo transformadoras, mas também nos ramos da agricultura e dos serviços públicos) em 17 países desenvolvidos (incluindo países europeus, a Austrália, a Coreia do Sul e os EUA). Concluíram que os robots industriais aumentam a produtividade laboral, a produtividade total dos fatores e os salários; no entanto, embora não tenham registado qualquer efeito significativo no total de horas trabalhadas, existem evidências de que o emprego dos trabalhadores com qualificações mais baixas seria negativamente afetado, assim como, ainda que em menor escala, os dos trabalhadores com qualificações médias. O artigo está disponível para leitura na íntegra (vii).

Em suma, os robots não reduziram a labutação (as horas de trabalho) de quem tinha trabalho — antes pelo contrário. Mas levaram, de facto, a uma redução de empregos entre os menos qualificados, afetando até mesmo quem tinha algumas qualificações. Ou seja: mais labuta, em vez de menos horas de trabalho — e mais desemprego.

Dois economistas de Ofxord, Carl Benedikt e Michael Osborne (viii), olharam para o impacto expetável das alterações tecnológicas numa gama abrangente de 702 atividades profissionais, desde podólogos a guias turísticos, passando por treinadores de animais, conselheiros económicos individuais e envernizadores. Chegaram a conclusões assustadoras: «Segundo as nossas previsões, cerca de 47 por cento do emprego nos EUA está em risco. Apresentaremos evidências de como os salários e os graus de instrução estabelecem uma forte relação negativa com a probabilidade de informatização de uma dada profissão… Em vez de reduzir a procura de ocupações de média remuneração — que tem sido o padrão das últimas décadas —, o nosso modelo estima que, num futuro próximo, a informatização tenderá a substituir principalmente empregos que podem poucas qualificações e pagam salários baixos. Em contraste, as profissões que exigem mais qualificações e oferecem melhores salários são as menos vulneráveis ao capital informático. Manchester resume assim as conclusões a que chegaram: “ou seja, os pobres serão afetados, os do meio terão uma vida ligeiramente melhor, em comparação com presente, e, os ricos — surpresa! —, continuam felizes da vida”.»

No mesmo ensaio, Lanchester chama a atenção para o facto de o mundo robótico poder dar origem, não a uma utopia «pós-capitalista», mas antes a um «mundo de Piketty», «em que o capital acentua cada vez mais o triunfo sobre o trabalho». E cita, a propósito, os lucros tremendos obtidos pelas grandes empresas tecnológicas: «Em 1960, a empresa mais rentável na maior economia do mundo era a General Motors. Em valores atuais, a GM ganhou 7,6 biliões de dólares nesse ano. Além disso, empregava 600 mil pessoas. Hoje, a empresa mais rentável emprega 92 600. Ou seja: outrora, 600 mil trabalhadores geravam 7,6 biliões de dólares, ao passo que, hoje em dia, 92,600 trabalhadores geram 89,9 biliões. Estamos a falar de um aumento de produtividade na casa de 76,65 vezes mais por cada trabalhador. Convém não esquecer que tudo isto é lucro puro para os donos da empresa, já depois de os pagamentos aos trabalhadores terem sido processados. Não se trata apenas de o capital estar a ganhar ao trabalho: a questão é que já não há sequer disputa. Se fosse um combate de boxe, o árbitro já tinha mandado parar a luta.»

Porém, olhar para o lucro das empresas que se apoderam do valor criado pelo trabalho nos novos setores não é necessariamente um indicador para a saúde integral do capital. Estará o capitalismo, no seu todo, a ter um novo sopro de vida? Ao fim e ao cabo, o aumento global do investimento é muito baixo no atual cenário de depressão de longa duração, assim como o concomitante aumento da produtividade. A propósito, podem ler os meus artigos sobre produtividade e investimento (ix).

Os robots não resolvem as contradições inerentes à acumulação capitalista, cuja essência se resume assim: para aumentar os lucros e acumular mais capital, os capitalistas desejam introduzir máquinas que possam aumentar a produtividade de cada trabalhador e reduzir os custos em comparação com a competição. É este o grande papel revolucionário do capitalismo no desenvolvimento das forças de produção ativas na sociedade.

Mas existe aqui uma contradição. Ao tentar aumentar a produtividade laboral através da introdução de tecnologia, gera-se um processo de redução de postos de trabalho — ou seja, as novas tecnologias substituem o trabalho. E mais produtividade pode gerar mais produção e abrir novos setores de empregabilidade, o que poderia compensar essa diminuição; mas, ao longo do tempo, a perspetiva capitalista da redução de postos de trabalho é que se cria menos valor novo (já que o trabalho é a única forma de valor) em relação ao custo do capital investido. Existe, portanto, uma tendência para que a rentabilidade decaia com o aumento da produtividade. Por ouro lado, essa situação poderá mesmo levar a uma crise de produção suficientemente grande para neutralizar — o mesmo inverter —os ganhos de produção gerados pelas novas tecnologias. E isto simplesmente porque, no nosso modo moderno de produção, o investimento e a produção dependem da rentabilidade do capital.

Portanto, uma economia capitalista cada vez mais dominada pela Internet das Coisas e por robots implicará crises mais intensas e mais desigualdades, e não qualquer tipo superabundância ou prosperidade. No meu próximo artigo, discutirei se um mundo em que robots constroem robots cada vez mais inteligentes — talvez sem qualquer intervenção laboral humana — significa o fim de lei do valor e das crises recorrentes do capitalismo.

i https://thenextrecession.wordpress.com/2015/07/21/paul-mason-and-postcapitalism-utopian-or-scientific/

ii Foi traduzido: https://www.wook.pt/livro/pos-capitalismo-paul-mason/17436032

iii https://bankunderground.co.uk/2015/06/19/driverless-cars-insurers-cannot-be-asleep-at-the-wheel/

iv http://www.mckinsey.com/business-functions/business-technology/our-insights/disruptive-technologies

v http://www.lrb.co.uk/v37/n05/john-lanchester/the-robots-are-coming

vi http://voxeu.org/article/robots-productivity-and-jobs

vii http://cepr.org/active/publications/discussion_papers/dp.php?dpno=10477

viii http://www.oxfordmartin.ox.ac.uk/downloads/academic/The_Future_of_Employment.pdf

ix https://thenextrecession.wordpress.com/2015/08/08/the-great-productivity-slowdown/

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