Robots e IA: Utopia ou Distopia — 2.ª parte

Por Mariana Avelãs

No meu primeiro artigo(i) sobre robots e IA, abordei o impacto destas novas tecnologias no futuro do emprego e da produtividade. Chamei a atenção para a contradição que se gera no seio do modo de produção capitalista entre o aumento da produtividade alcançado graças às novas tecnologias e a diminuição da rentabilidade.
Nesta segunda parte, proponho olhar para o impacto dos robots e IA pelo prisma da lei do valor no capitalismo, enunciada por Marx. Marx assume duas premissas-chave para explicar as leis de movimento no âmbito do capitalismo:

1) que apenas o trabalho humano gera valor e 2) que, ao longo do tempo, o investimento dos capitalistas em tecnologia e meios de produção suplantará o investimento em força de trabalho humana — recorrendo à terminologia de Marx, registar-se-á um aumento na composição orgânica do capital ao longo dos tempos.

Não temos aqui espaço para apresentar as evidências empíricas da última afirmação, mas podem encontrá-las no livro Crises and Marx Law, de G. Carchedi( ). Em O Capital, Marx explica, detalhadamente, que a composição orgânica crescente do capitalismo é uma das principais caraterísticas da acumulação capitalista. No sistema capitalista, o investimento tem como único propósito o lucro, e não propriamente aumentar a produção ou a produtividade. Se não for possível obter lucro suficiente através de mais horas de trabalho (i.e., mais trabalhadores a trabalhar mais tempo) ou pelas tentativas de intensificação (velocidade e eficiência — tempo e movimento), então a produtividade do trabalho (mais valor por hora de trabalho) só pode ser alcançada através de melhor tecnologia. Por outras palavras, na terminologia marxista, a composição orgânica do capital (a quantidade de máquinas e fábricas relativamente ao número de trabalhadores) vai aumentar secularmente. Os trabalhadores podem lutar por ficar com a maior parcela possível do novo valor que criaram, como parte da sua «compensação», mas o capitalismo só vai investir no crescimento se essa componente salarial não crescer ao ponto de causar um declínio na rentabilidade. Ou seja, a acumulação capitalista implica uma quebra da parcela laboral ao longo do tempo, ou o que Marx denominaria de uma taxa crescente de exploração (ou mais-valia).

O «pendor capitalista» da tecnologia é algo continuamente ignorado pela economia tradicional. Mas, como Branco Milanovic( ) assinalou, até a teoria económica mais ortodoxa incluiria este processo secular na acumulação capitalista — nas suas próprias palavras: «Em Marx, a premissa é a de que os processos com mais capital intensivo são sempre mais produtivos. Por isso, os capitalistas tendem, simplesmente, a acumular mais e mais capital e a substituir o labor… o que, num quadro marxista, significa que existem cada vez menos trabalhadores que, obviamente, produzem cada vez menos mais-valia (absoluta) e este menor valor acrescentado sobre uma massa maior de capital significa que a taxa de lucro cai.» …
«O resultado é idêntico se colocarmos este processo marxista num contexto neoclássico e assumirmos que a elasticidade da substituição é inferior a 1. O que acontece é, simplesmente, que r cai a pique a cada ronda sucessiva de investimento em capital intensivo, até chegar praticamente a zero. Como escreve Marx, todos os capitalistas individuais têm interesse em investir em mais processos de capital intensivo, de modo a conseguir preços inferiores aos dos outros capitalistas; porém, quando todos fazem a mesma coisa, a taxa de lucro também desce universalmente. Ou seja, em última análise, todos se dedicam a inviabilizar a sua própria atividade (mais rigorosamente, dedicam-se a prosseguir uma taxa de lucro nula).»
Em seguida, Milanovic aborda a tecnologia da robótica: «A receita líquida, no equilíbrio marxista, será baixa, porque apenas o trabalho gera “novo valor” e, uma vez que serão empregues muito poucos trabalhadores, esse “novo valor” será baixo (independentemente de quão intensos os esforços dos capitalistas para acrescentar mais-valias). Para visualizar o equilíbrio marxista, imaginem milhares de robots a trabalhar numa grande fábrica, com apenas um trabalhador a controlá-los; assumamos um ano como duração da vida útil dos robots, o que faz com que seja preciso substitui-los continuamente, incorrendo em enormes custos anuais de depreciação e reinvestimento. A composição do PIB seria deveras interessante: se o total do PIB fosse 100, teríamos consumo=5, investimento líquido=5, e depreciação=90. Seria possível viver num país com um PIB per capita de 500 mil dólares, dos quais 450 mil corresponderiam a uma depreciação.»
É esta a principal contradição inerente à produção capitalista: aumentos de produtividade causam quedas na rentabilidade, que, periodicamente, interrompem o crescimento da produção e da produtividade. Mas o que é que isso implica, se pensarmos num futuro extremo (ficção científica?), em que, graças à tecnologia robótica e à IA, são os robots a fazer robots E a extrair matérias-primas e a fazer tudo e mais alguma coisa E a executar todos os serviços, públicos e pessoais, de modo a que o trabalho humano deixe de ser necessário em QUALQUER tipo de produção?
Imaginemos um processo completamente automatizado, em cuja produção não existem humanos. Foi acrescentado valor, uma vez que as matérias-primas foram convertidas em comodidades sem envolvimento humano, certo? E isso refuta a tese de Marx de que apenas o trabalho humano pode criar valor, certo?
Há aqui uma grande confusão em torno da natureza dupla no valor no capitalismo; ou seja: o valor de uso e o valor de troca. Existe valor de uso (coisas e serviços de que as pessoas necessitam) e valor de troca (o valor medido em tempo de trabalho humano, apropriado pelos detentores do capital e concretizado através da venda nos mercados). No modo de produção capitalista, qualquer comodidade contém um valor de uso e um valor de troca, e é impossível ter um sem o outro. Mas é o último que regula os processos de investimento e produção capitalistas — o primeiro, não.
O valor (tal como já foi definido) é específico do capitalismo. Claro está, o trabalho vivo pode criar coisas e prestar serviços (valores de uso); mas o valor é a essência do modo capitalista de produzir. O capital (ou os donos dele) controla os meios de produção criados pelo trabalho e só os colocará a uso para apropriar-se do valor criado por mais trabalho. O capital, em si mesmo, não produz valor.
Mas, no nosso hipotético e abrangente mundo de robots e IA, a produtividade (de valores de uso) tenderia para a infinidade e a rentabilidade (valor acrescentado ao valor do capital) para zero. O trabalho humano já não seria utilizado e explorado pelo capital (os seus donos). Em vez disso, seriam os robots a fazer tudo. Já não estamos a falar de capitalismo. Acho que a analogia mais próxima seria com a economia esclavagista da Roma antiga.
Na Roma antiga, ao longo de centenas de anos, a economia anteriormente dominada pelo pequeno campesinato foi sendo substituída por escravos na extração mineira, agricultura, e toda a espécie de tarefas. Tal só foi possível porque os espólios das guerras vitoriosas conduzidas pela república e império romanos incluíam um fornecimento maciço de mão-de-obra escrava. O custo para os donos desses escravos era incrivelmente baixo (para começar) quando comparado com os associados a contratar trabalho livre. Os donos de escravos forçavam os agricultores a abanador as suas terras, através de um misto de exigências relacionadas com dívidas, requisições para a guerra e violência pura. Os antigos camponeses, e as respetivas famílias, viam-se obrigados a tornar-se, eles mesmos, escravos, ou a emigrar para as cidades, onde mal conseguiam sobreviver à custa de trabalhos e tarefas menores ou da mendicidade. A luta de classes não acabou — passou a ser entre os aristocratas donos de escravos e os escravos e entre os aristocratas e a plebe atomizada nas cidades.
Há um filme recente que aborda esta ficção científica moderna — o Elysium. No filme, os donos dos robots e da tecnologia moderna construíram para si todo um planeta no espaço, separado da Terra, onde vivem uma vida de luxo à custa das coisas e serviços disponibilizados pelos robots, e defendem esta vida segregada através de exércitos de robots. O resto da raça humana continua a viver na Terra, numa probreza extrema, rodeados por doença e abjeção — a redução à miséria da classe operária, que já não trabalha para subsistir.
No mundo do Elysium, a questão mantém-se: quem detém os meios de produção? Num planeta completamente automatizado, como seriam os bens e serviços produzidos pelos robots distribuídos para serem consumidos? Tal dependeria de quem fosse o dono dos robots — os meios de produção. Imaginem que, no tal planeta mantido pelos robots, há 100 sortudos, e um deles é dono dos melhores robots e consegue apropriar-se de toda a produção. Porque haveria de partilhá-la com os outros 99? Esses acabarão por ser recambiados para a Terra. Ou podem não estar pelos ajustes e lutar pela apropriação de alguns dos robots. E assim, como chegou a dizer Marx, é a mesma merda toda de novo, mas com uma diferença.
Ao fim e ao cabo, tudo dependeria do modo como a humanidade passasse a ser uma sociedade completamente automatizada. No contexto de uma revolução socialista e propriedade comum, a distribuição do resultado da produção dos robots pode ser controlada — a cada um/a, de acordo com as suas necessidades. Mas, se a sociedade funcionar na base da continuação da propriedade privada dos robots, nesse caso, a luta de classes pelo controlo das mais-valias mantém-se.
A questão que muita vez se levanta nesta altura é: a quem é que os donos dos robots vão vender os seus produtos e serviços para obter lucro? Se os trabalhadores não trabalham nem recebem qualquer rendimento, então é garantido que existirá sobre-produção e subconsumo a grande escala, certo? Ou seja, em última análise, será o subconsumo das massas a derrubar o capitalismo?
Mais uma vez, acho que se trata de um mal-entendido. Uma sociedade robótica deste tipo já não é capitalista; é mais como uma economia esclavagista. Os donos dos meios de produção (os robots) detêm agora uma economia super abundante em coisas e serviços a custo zero (robots que fazem robots que fazem robots). E podem limitar-se a consumir. Não precisam de «fazer lucro», tal como os aristocratas donos de escravos de Roma se limitavam a consumir, e não orientavam os seus negócios para o lucro. Não estaríamos perante uma crise de sobre-produção no sentido capitalista (relacionado com os lucros), nem de «subconsumo» (falta de poder de compra ou de procura efetiva de bens nos mercados), exceto no sentido físico da pobreza.
A economia tradicional continua a olhar para o crescimento dos robots no sistema capitalista como a génese de uma crise de subconsumo. Jeffrey Sachs( ) enquadra assim a questão: «Onde eu eu vejo o problema genérico para toda a sociedade se os seres humanos forem despedidos a uma escala industrial (fala-se de 47 por cento nos EUA)? Aqui: onde é que está o mercado para os bens?» Por seu lado, Martin Ford( ) afirma que «não há maneira de prever como poderá o setor privado resolver este problema. Pura e simplesmente, não há alternativa exceto o governo garantir algum mecanismo que garanta rendimento aos consumidores.» Ford não propõe o socialismo, claro está, mas apenas um mecanismo para redirecionar os salários perdidos de volta para os «consumidores»; só que tal esquema acabaria por ameaçar a propriedade e a rentabilidade privadas.
Uma economia robótica poderia significar um mundo de superabundância para todos (é o que Paul Mason sugere em Pós-Capitalismo ); ou apenas um Elysium. O colunista do Finantial Times Martin Wolf( ) colocou a coisa nestes termos: «A ascenção das máquinas inteligentes é um momento histórico. Implicará muitas mudanças, incluindo ao nível económico. Mas o potencial é claro: tornarão possível aos seres humanos viver vidas muito melhores. Se acabará por ser assim ou não depende do modo como os ganhos são produzidos e distribuídos. É possível que o resultado final seja uma pequena minoria de grandes vencedores e uma grande quantidade de perdedores. Mas tal desfecho seria uma escolha, não um fado. Não é necessária uma forma de tecno-feudalismo; bem vistas as coisas, a tecnologia em si não dita destino algum — ao contrário das instituições económicas e políticas. Se as que temos não produzem os resultados que desejamos, temos de mudá-las.» É uma «escolha» social, ou, para sermos mais rigorosos, depende do resultado da luta de classes no capitalismo.
John Lanchester( ) vai muito mais direto ao assunto: «Também vale a pena referir o que não está a ser dito acerca deste futuro robotizado. O cenário que estão a descrever-nos — aquele que é suposto aceitarmos como inevitável — é o de uma distopia hipercapitalista. Há o capital, a sair-se melhor do que nunca; os robots, a fazer o trabalho todo; e a grande massa da humanidade, que não faz grande coisa, mas diverte-se a brincar com as geringonças… Existe uma alternativa plausível, em que a posse e o controlo dos robots estão desligados do capital, na sua forma atual. Os robots libertam a maioria da humanidade do trabalho, e toda a gente beneficia com o resultado: não temos de trabalhar em fábricas ou descer às minas ou limpar casas de banho ou conduzir camiões de longa distância, mas podemos fazer coreografias, dedicar-nos à costura ou à jardinagem e contar historias e inventar coisas e pensar em como criar um novo universo de desejos. Este seria o mundo de desejos ilimitados descrito pela economia, mas distinguindo os desejos satisfeitos pelos humanos do trabalho feito pelas nossas máquinas. Parece-me que a única maneira de esse mundo funcionar é com formas alternativas de propriedade. O motivo, o único motivo, para pensar que este mundo melhor é possível é que o futuro distópico do capitalismo-mais-robots pode acabar por revelar-se demasiado sinistro para ser politicamente viável. Este futuro alternativo seria o tipo de mundo sonhado por William Morris, cheio de seres humanos empenhados em trabalhos com significado e com remunerações sãs. Só que com robots. Não deixa de ser significativo em relação ao atual momento que, quando estamos perante um futuro que tanto pode vir a assemelhar-se a uma distopia hipercapitalista ou a um paraíso socialista, a segunda opção não seja sequer mencionada.»
Mas regressemos ao aqui e agora. Se o mundo inteiro da tecnologia, produtos de consumo e serviços pudesse reproduzir-se sem a força de trabalho viva ter de trabalhar, e pudesse fazê-lo através de robots, então as coisas e os serviços continuariam a ser produzidos, mas sem criação de valor (nomeadamente, o lucro ou mais-valias). Segundo Martin Ford, «quanto mais as máquinas se gerirem a elas mesmas, mais entra em declínio o valor que o trabalhador mediano acrescenta.» Assim sendo, a acumulação capitalista deixaria de existir muito antes de os robots tomarem conta de tudo, porque a rentabilidade desapareceria sob o peso do «pendor capitalista».
A mais importante lei do movimento no capitalismo, como Marx lhe chamou, entraria em ação: a tendência para a taxa de lucro cair. Com o aumento da tecnologia «de pendor capitalista», a composição orgânica do capital também aumenta, pelo que o trabalho acaba, por fim, por gerar um valor insuficiente para garantir a rentabilidade (ie., as mais-valias relativas aos custos do capital). Jamais chegaríamos a uma sociedade robótica; jamais chegaríamos a uma sociedade sem trabalho — pelo menos no capitalismo. Haveria crises e explosões sociais muito antes.
E esse é que é o ponto fulcral. Vamos lá ter calma com a economia dos robots. No próximo (e último) artigo sobre o assunto, abordarei a realidade do futuro dos robots e da IA sob a égide do capitalismo.

Robots and AI: utopia or dystopia? part one
(crisis and the law for BOOK1-1)
http://glineq.blogspot.pt/2015/04/the-rule-of-robots-in-stiglitz-and-marx.html
http://prospect.org/article/how-live-happily-robots
http://www.npr.org/sections/alltechconsidered/2015/05/18/407648886/attention-white-collar-workers-the-robots-are-coming-for-your-jobs
Paul Mason and postcapitalism: utopian or scientific?
http://www.ft.com/cms/s/e1046e2e-8aae-11e3-9465-00144feab7de,Authorised=false.html?siteedition=intl&_i_location=http%3A%2F%2Fwww.ft.com%2Fcms%2Fs%2F0%2Fe1046e2e-8aae-11e3-9465-00144feab7de.html%3Fsiteedition%3Dintl&_i_referer=&classification=conditional_standard&iab=barrier-app#axzz4J20Hpzsd
http://www.lrb.co.uk/v37/n05/john-lanchester/the-robots-are-coming

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